Tuesday, October 18, 2005

AINDA HÁ BONS ALUNOS DE PORTUGUÊS!

Esta foi uma redacção que,pelo insolito e imaginativo, ganhou um prémio...

É espectacular!

Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se
encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com aspecto plural
e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem
definido, feminino, singular. Era ainda novinha, mas com um
maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, ilábica, um pouco à tona,
um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os
vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos. O
substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele
lugar sem ninguém a ver nem ouvir.

E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, a
conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e
permitiu-lhe esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro. Óptimo, pensou
o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos.

Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador
recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára
exactamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão
verbal, e entrou com ela no seu aposento. Ligou o fonema e ficaram
alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e
relaxante.

Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.
Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a
insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto
adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo. Todos os vocábulos
diziam que iriam terminar num transitivo directo. Começaram a
aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo
crescente.

Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período
simples, passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela
confessou que ainda era vírgula. Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe
que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou
levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades
dele e foram para o comum de dois géneros. Ela, totalmente voz
passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias,
parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.

Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo
do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira
e segunda pessoas do singular. Ela era um perfeito agente da passiva,
ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão
forçando aquele hífen ainda singular.

Nisto a porta abriu-se repentinamente.

Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou
logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram
gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas,
ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor,
subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou
a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se
e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.
Que loucura, meu Deus.

Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se
aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele
predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando
cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu
tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que, as
condições eram estas. Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria
no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no
artigo feminino. O substantivo, vendo que poderia transformar-se num
artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo,
resolveu colocar um ponto final na história.

Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela
evoltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o
artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva".


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2 Comments:

Anonymous Anonymous said...

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4:35 AM  
Anonymous Maia said...

Este texto é absolutamente fantástico...

12:18 PM  

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